Desde muito cedo me sentia em casa na natureza. O vento entre as folhas, o sol tocando a pele, o cheiro da terra depois da chuva, trazia uma sensação de equilíbrio e bem-estar que poucas coisas conseguiam proporcionar. Durante a graduação, percebi que me sentia melhor atendendo pacientes ao ar livre; naturalmente, comecei a conduzir algumas sessões dessa forma. Era algo quase inconsciente, nada planejado e logo percebi que algo que fazia bem pra mim, também fazia bem para eles.
O consultório onde trabalho, em Curitiba, Brasil, é uma casa antiga, temos três salas que recebem a luz natural o dia todo. Uma de recepção, uma de exercícios e outra de terapias de analgesia e eletrotermofototerapia. As janelas dão vista para um jardim vivo. Com um gramado que se estende ao centro, e ao redor algumas pequenas árvores, plantas e flores que mudam de cor e perfume conforme as estações. Um ambiente aconchegante e acolhedor. Nada foi adaptado para isso; o espaço já era assim, aberto, luminoso, convidativo. E, por ser assim, tornou-se o lugar perfeito para integrar o cuidado com a força tranquila da natureza.
Foi nesse cenário que recebi um paciente com dor lombar crônica. Ele chegou cansado, descrente e com baixa motivação para exercícios. Já havia passado por muitos tratamentos e não esperava melhora. Nas primeiras sessões, ficamos dentro da sala, usando os recursos de eletro, mantendo a janela aberta para que pudesse observar o jardim. Percebi que o simples fato de ter contato com o ambiente externo começava a mudar algo em sua postura e disposição..
Alguns atendimentos mais tarde, quando iniciamos os exercícios, fomos para o gramado. O dia estava claro, sob a luz do sol, ajustei os movimentos para que fossem executados de forma segura e adaptada ao espaço, garantindo segurança e conforto. Aos poucos, o corpo dele começou a responder de outra forma. Logo nos primeiros atendimentos, notei mudanças sutis: ele respirava mais profundamente, movia-se com mais liberdade e, acima de tudo, sorria genuinamente ao final da atividade. A prática ao ar livre não apenas facilitava os exercícios, mas também promovia relaxamento, diminuição da tensão muscular e motivação para continuar o tratamento.
As sessões seguintes mantiveram esse ritmo calmo e vivo. O ambiente parecia cooperar conosco: o canto dos pássaros marcava pausas, a brisa suavizava o esforço. A dor começou a ceder, a postura se reorganizou, mas o que realmente mudou foi a maneira como ele se percebia. “Fico esperando o dia da fisioterapia”, me disse uma vez. “É o único momento da semana em que fico perto da natureza.”

Ana Flávia Schewtschik (BSc)
Fisioterapeuta, Consultório Airmid
Ana Flávia é fisioterapeuta no Consultório Airmid, com atuação voltada à promoção da saúde e à qualidade de vida. Sua prática integra os princípios da Fisioterapia Ambiental e da saúde planetária, incorporando o meio ambiente como parte essencial do processo terapêutico. Graduada em Fisioterapia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná e pós-graduanda em Educação Ambiental e Sustentabilidade pela UNINTER, desenvolve no Consultório Airmid uma abordagem de cuidado sustentável, centrada na conexão entre saúde, natureza e bem-estar.
Ele trabalhava em escritório, morava em apartamento. Cercado de concreto. Com o tempo, me relatou, começou a buscar mais momentos ao ar livre. Pequenas caminhadas, pausas no sol, plantas em casa. O tratamento seguiu, a dor diminuiu e a alta veio. Mas algo mais profundo permaneceu: a redescoberta do prazer de estar em contato com o mundo natural.
Essa experiência me mostrou, uma vez mais, que o ambiente não é apenas cenário, é parte ativa do cuidado. A natureza, silenciosa e constante, participa da terapia de formas que a ciência começa apenas a compreender.
Olhar para ela como parte integrante do processo de cura talvez seja não apenas necessário, mas uma das respostas possíveis aos desafios contemporâneos da saúde. Em meio à pressa, ao concreto e às rotinas fechadas, talvez reencontrar o verde — dentro e fora de nós — seja um caminho para restaurar o que a vida moderna fragmentou: o vínculo entre corpo, mente e planeta.